Era uma vez eu... quando era pequena.
Era uma vez… uma menina, não muito diferente das outras, ora bem, tinha dois braços, duas pernas, dois olhos grandes, duas orelhas… e outras coisas que todas as meninas têm. Saltava como muitas outras, ria, rodopiava. Costumava brincar num campo de amendoeiras, trepava árvores, inventava personagens, dava nome aos troncos contorcidos e fazia coroas de flores. À noite costumava espreitar as estrelas e ver a lua.
Acreditava que os ovos dos insectos eram pérolas de algum tesouro maior que ainda não tinha encontrado, e assim que eles eclodiam, sem ela dar por nada, enfurecia-se com a hipótese de ter sido roubada.
Um dia, essa menina como todas as outras (talvez no tempo de escola, o que importa) foi surpreendida por um rapaz que nunca tinha falado, trazia as mãos fechadas como uma concha. Lá dentro, devia estar qualquer coisa importante. Aproximou-se dela e todas as crianças os observavam num gutural e estranho silêncio. Perguntou «queres uma prenda?», ela respondeu que sim acenando com a cabeça e esticou a duas mãos abertas e vazias. Ele pousou-lhe delicadamente qualquer coisa dentro das mãos. Ela fechou-as de seguida sem ver o que era. Ele afastou-se a rir às gargalhadas, apontando para ela e comentando com outras crianças qualquer coisa que ela não estava a perceber. Manteve-se quieta com as mãos em concha com o seu presente lá dentro. Ele aproximou-se de novo, expectante, confuso com a reacção daquela miúda estranha, mas ela permaneceu estática, calma, olhou-o, «obrigado» disse. Ele afastou-se dela, confuso, ela não era uma rapariga como todas as outras que corriam em pânico e com medo. Aquela rapariga como todas as outras era estranhamente diferente das outras raparigas. Estava desiludido.
Já sozinha e apenas com esparsos olhares distantes sobre si, entreabriu as mãos e espreitou finalmente. «Não tens medo?», perguntou uma voz atrás de si, era um miúdo, franzino, tinha chegado sabe-se lá de onde, mas com coragem suficiente para lhe falar. «Porque haveria de ter?» perguntou-lhe ela, «as outras raparigas começam logo aos gritos e fogem, tu não tens medo?», ela olhou-o somente sem resposta para aquela pergunta.
Ficaram diante um do outro alguns segundos em silêncio, ela ainda com as mãos em concha guardando o seu presente e ele de pescoço esticado olhando os olhos grandes e estranhos daquela rapariga diferente. «Queres vir comigo?», ele olhou-a surpreendido com o seu convite e acenou que sim entusiasmado. Afastaram-se os dois da multidão que ainda lançava olhares confusos. Chegaram por fim a um campo verde que lhe era bastante familiar, «vamo-nos sentar, talvez demore algum tempo», ele sentou-se sem pestanejar, admirado, quem sabe, com a tranquilidade daquela rapariga como as outras, mas diferente, uma rapariga que não tem medo de prendas em mãos fechadas.
Ela pousou as mãos sobre a erva fresca e abriu-as. Dentro delas, um grilo gordo e desajeitado dormitava tonto. Ele arregalou os olhos e afastou-se, o grilo era feio. Ela riu, «posso contar-te um segredo?», ele acenou que sim ainda com os olhos muito abertos, «sempre tive medo deles…».
Algum tempo depois o pequeno grilo já desperto e refeito dos sustos daquele dia desceu-lhe calmo e lento da mão.
Acreditava que os ovos dos insectos eram pérolas de algum tesouro maior que ainda não tinha encontrado, e assim que eles eclodiam, sem ela dar por nada, enfurecia-se com a hipótese de ter sido roubada.
Um dia, essa menina como todas as outras (talvez no tempo de escola, o que importa) foi surpreendida por um rapaz que nunca tinha falado, trazia as mãos fechadas como uma concha. Lá dentro, devia estar qualquer coisa importante. Aproximou-se dela e todas as crianças os observavam num gutural e estranho silêncio. Perguntou «queres uma prenda?», ela respondeu que sim acenando com a cabeça e esticou a duas mãos abertas e vazias. Ele pousou-lhe delicadamente qualquer coisa dentro das mãos. Ela fechou-as de seguida sem ver o que era. Ele afastou-se a rir às gargalhadas, apontando para ela e comentando com outras crianças qualquer coisa que ela não estava a perceber. Manteve-se quieta com as mãos em concha com o seu presente lá dentro. Ele aproximou-se de novo, expectante, confuso com a reacção daquela miúda estranha, mas ela permaneceu estática, calma, olhou-o, «obrigado» disse. Ele afastou-se dela, confuso, ela não era uma rapariga como todas as outras que corriam em pânico e com medo. Aquela rapariga como todas as outras era estranhamente diferente das outras raparigas. Estava desiludido.
Já sozinha e apenas com esparsos olhares distantes sobre si, entreabriu as mãos e espreitou finalmente. «Não tens medo?», perguntou uma voz atrás de si, era um miúdo, franzino, tinha chegado sabe-se lá de onde, mas com coragem suficiente para lhe falar. «Porque haveria de ter?» perguntou-lhe ela, «as outras raparigas começam logo aos gritos e fogem, tu não tens medo?», ela olhou-o somente sem resposta para aquela pergunta.
Ficaram diante um do outro alguns segundos em silêncio, ela ainda com as mãos em concha guardando o seu presente e ele de pescoço esticado olhando os olhos grandes e estranhos daquela rapariga diferente. «Queres vir comigo?», ele olhou-a surpreendido com o seu convite e acenou que sim entusiasmado. Afastaram-se os dois da multidão que ainda lançava olhares confusos. Chegaram por fim a um campo verde que lhe era bastante familiar, «vamo-nos sentar, talvez demore algum tempo», ele sentou-se sem pestanejar, admirado, quem sabe, com a tranquilidade daquela rapariga como as outras, mas diferente, uma rapariga que não tem medo de prendas em mãos fechadas.
Ela pousou as mãos sobre a erva fresca e abriu-as. Dentro delas, um grilo gordo e desajeitado dormitava tonto. Ele arregalou os olhos e afastou-se, o grilo era feio. Ela riu, «posso contar-te um segredo?», ele acenou que sim ainda com os olhos muito abertos, «sempre tive medo deles…».
Algum tempo depois o pequeno grilo já desperto e refeito dos sustos daquele dia desceu-lhe calmo e lento da mão.
[histórias de maria bonita, infancia