Ervilhas e Feijões Verdes


   

11 Julho, 2006

Era uma vez eu... quando era pequena.

Era uma vez… uma menina, não muito diferente das outras, ora bem, tinha dois braços, duas pernas, dois olhos grandes, duas orelhas… e outras coisas que todas as meninas têm. Saltava como muitas outras, ria, rodopiava. Costumava brincar num campo de amendoeiras, trepava árvores, inventava personagens, dava nome aos troncos contorcidos e fazia coroas de flores. À noite costumava espreitar as estrelas e ver a lua.
Acreditava que os ovos dos insectos eram pérolas de algum tesouro maior que ainda não tinha encontrado, e assim que eles eclodiam, sem ela dar por nada, enfurecia-se com a hipótese de ter sido roubada.
Um dia, essa menina como todas as outras (talvez no tempo de escola, o que importa) foi surpreendida por um rapaz que nunca tinha falado, trazia as mãos fechadas como uma concha. Lá dentro, devia estar qualquer coisa importante. Aproximou-se dela e todas as crianças os observavam num gutural e estranho silêncio. Perguntou «queres uma prenda?», ela respondeu que sim acenando com a cabeça e esticou a duas mãos abertas e vazias. Ele pousou-lhe delicadamente qualquer coisa dentro das mãos. Ela fechou-as de seguida sem ver o que era. Ele afastou-se a rir às gargalhadas, apontando para ela e comentando com outras crianças qualquer coisa que ela não estava a perceber. Manteve-se quieta com as mãos em concha com o seu presente lá dentro. Ele aproximou-se de novo, expectante, confuso com a reacção daquela miúda estranha, mas ela permaneceu estática, calma, olhou-o, «obrigado» disse. Ele afastou-se dela, confuso, ela não era uma rapariga como todas as outras que corriam em pânico e com medo. Aquela rapariga como todas as outras era estranhamente diferente das outras raparigas. Estava desiludido.
Já sozinha e apenas com esparsos olhares distantes sobre si, entreabriu as mãos e espreitou finalmente. «Não tens medo?», perguntou uma voz atrás de si, era um miúdo, franzino, tinha chegado sabe-se lá de onde, mas com coragem suficiente para lhe falar. «Porque haveria de ter?» perguntou-lhe ela, «as outras raparigas começam logo aos gritos e fogem, tu não tens medo?», ela olhou-o somente sem resposta para aquela pergunta.
Ficaram diante um do outro alguns segundos em silêncio, ela ainda com as mãos em concha guardando o seu presente e ele de pescoço esticado olhando os olhos grandes e estranhos daquela rapariga diferente. «Queres vir comigo?», ele olhou-a surpreendido com o seu convite e acenou que sim entusiasmado. Afastaram-se os dois da multidão que ainda lançava olhares confusos. Chegaram por fim a um campo verde que lhe era bastante familiar, «vamo-nos sentar, talvez demore algum tempo», ele sentou-se sem pestanejar, admirado, quem sabe, com a tranquilidade daquela rapariga como as outras, mas diferente, uma rapariga que não tem medo de prendas em mãos fechadas.
Ela pousou as mãos sobre a erva fresca e abriu-as. Dentro delas, um grilo gordo e desajeitado dormitava tonto. Ele arregalou os olhos e afastou-se, o grilo era feio. Ela riu, «posso contar-te um segredo?», ele acenou que sim ainda com os olhos muito abertos, «sempre tive medo deles…».
Algum tempo depois o pequeno grilo já desperto e refeito dos sustos daquele dia desceu-lhe calmo e lento da mão.
[histórias de maria bonita, infancia
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